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Crescer sem pressa

Não são as fraldas, os dentes, talvez nem as noites sem dormir. O maior desafio de educar um filho nos dias de hoje é mesmo o tempo. O que passamos com ele e a forma como o vivemos. De preferência sem pressas, uma contradição num mundo cada vez mais frenético, onde os dois pais trabalham, há mais stress e muitas vezes esse stress não é filtrado.
Lembro-me que esta foi uma das ideias que mais me marcou ainda antes de ser mãe, e um dos trabalhos que mais gostei de publicar enquanto editora da secção de Lifestyle do Observador. Numa entrevista à Ana Cristina Marques, a investigadora Catherine L’Ecuyer usou mesmo a expressão “pequenos executivos stressados” para descrever as crianças de hoje. A imagem marca porque é a antítese do que deveria ser a infância: estamos a engravatar os nossos filhos, no sentido figurado, na altura em que eles deveriam ser mais livres.
Nessa mesma entrevista, a autora dos livros Educar na Curiosidade e Educar na Realidade defende uma série de outras ideias que se tornaram numa espécie de meu mantra pessoal, já enquanto mãe: respeitar o ritmo da infância enquanto idade dos jogos, da imaginação, da descoberta e da aprendizagem. Ter cuidado com a tendência dos estímulos exagerados (leia-se demasiada tecnologia) porque destroem a curiosidade, uma das ferramentas mais poderosas dos seres pequeninos que vão crescendo ao nosso lado, e não deveriam crescer hipnotizados. Confiar nos nossos instintos enquanto pais, apesar da overdose de informação constante. Numa palavra: simplificar, à qual acrescento outras: abrandar, observar, ouvir, desligar, esperar.
Se temos muitas vezes a tentação de dizer “antigamente é que era”, vale a pena continuar a citar a mesma autora para sublinhar que “é importante não cair na nostalgia de pensar que antes era melhor e que agora é tudo um desastre”. Este é o nosso tempo e continuamos a ser nós que controlamos (mais ou menos) o ambiente vivido em nossa casa. Que podemos optar por brinquedos com menos botões ou mesmo sem pilhas, por exemplo, que podem dar mais trabalho aos pais do que um iPad colado aos olhos – é um facto – mas também motivam a ação e não a passividade. Que podemos fazer questão de sair e ver o que se passa à nossa volta, sem um ecrã pelo meio. Se isso significa ser antiquado e lento num mundo demasiado acelerado e tecnológico, então é porque lento passou de facto a ser uma qualidade, como defende aliás o movimento slow living, assente num estilo de vida mais saudável e em comunhão com a natureza. O meu filho tem um ano e está na fase de se maravilhar com uma simples pedrinha encontrada no chão. Longe de mim matar essa sensação de que ele está a estrear o mundo, através do qual nós próprios, pais, nascemos um pouco outra vez. Só quero que ele seja sempre assim curioso e que deixe a gravata – se alguma vez a quiser usar – para muito, muito depois.

Ana Dias Ferreira, Editora Lifestyle Observador

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